
* por Rodrigo Edipo
“É triste ir no UK Pub ver Wado tocar pra 15/20 pessoas, ou ver a estreia de Clayton ex-Cordel no mesmo UK pra 15/20 pessoas…”.
Quem conhece Paulo André Moraes sabe (ou pelo menos desconfia) qual o pano de fundo deste desabafo.
O produtor que está há mais de duas décadas “remando contra a corrente” com o Abril pro Rock (APR), tem motivo de sobra para estar inconformado com a política “multicultural” do Estado de Pernambuco e decepcionado com a precariedade que se encontra a nossa radiodifusão hoje.
“Um outdoor no Recife com Siba, Volver, Television, Jeneci e Móveis, é programação para poucos… não mais do que 5 mil pessoas, entende?”, explica Paulo se referindo a alguns nomes do lineup do APR-2013 quando perguntado sobre a disparidade de público entre as duas noites do Festival (encerrado sábado passado com os shows de JuveNil e Di Melo no APR Club).
Apesar de — em alguns momentos — adotar o discurso-padrão de quem resguarda a ferro e fogo a imagem do próprio empreendimento, conversar com o produtor sobre o Abril foi tanto compreender melhor o modus operandi que rege a curadoria do festival, como tambem vê-lo desafiar a nova geração a assumir a responsa de algum “inferninho” a fim de promover pequenos shows que movimentem a cena independente local. Dentre outras coisas igualmente interessantes e provocadoras.
A seguir, nossa conversa.
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De princípio, gostaria de saber se você ficou satisfeito com o APR-2013.
Fiquei, porque foi um ano “normal”, sem Paul McCartney ou Chico Buarque (concorrendo)… e o APR sem o Los Hermanos. Tínhamos (Rodrigo) Amarante, mas a tour do músico foi adiada pro segundo semestre e só soubemos disso na semana anterior ao carnaval, então tivemos que refazer a noite pop, mas o tamanho é esse mesmo… é desafiador montar uma programação da noite pop, com tudo que rola 2 meses antes. Além de um mega carnaval pop, com direito a Titãs no Marco Zero, tem todas as festas que rolam antes. É quase impossível fazer uma programação inédita, tem que compor com os gringos, o que já estamos fazendo há um bom tempo.
No caso, o ineditismo para a noite pop, basicamente, são as novas bandas pernambucanas e algum artista gringo.
Pois é, se você olhar nos últimos tempos, tivemos shows inéditos aqui, como por exemplo Karina Buhr em 2011. Ela, absurdamente, não foi convidada para a programação do carnaval 2011, mesmo depois de figurar nas listas de melhores do ano de 2010… na verdade apenas participou do show de abertura com Lenine, nem o Rec Beat se interessou, aí trouxemos, na hora certa, no momento certo. Já com Siba esse ano não era um show inédito, mas também 2012 foi o ano dele. O triste é que esses nomes locais são subestimados por público e setores da imprensa, não são vistos como atrações principais, apenas mais um show deles, só porque são artistas da própria cidade. Mas nessa noite pop já alternamos de nomes clássicos como Lee Perry, Skatalites, Television, até sons inéditos que nunca vieram pra cá, nem pro Brasil, como Heavy Trash, Antibalas, Chicha Libre, Buraka Som Sistema… reconheço que depois da política Multicultural (seja lá o que isso queira dizer) e seus ciclos juninos, natalinos, carnavalescos, etc, com centenas de shows gratuitos, oferta maior do que a demanda, mais do mesmo… ficou mais difícil compor a noite pop… de qualquer forma, mesmo na dificuldade, na hora de compor (o line up), preferimos confiar nos clássicos do que no hype.
Por que a noite pop, com o tempo, foi perdendo em importância em relação ao dia do metal?
Por tudo isso que te falei… pouca coisa nacional é inédita no APR, tem que ser um show novo, uma banda inédita, uma composição boa, pra fazer a galera sair de casa, mesmo assim, considero 4.000 pessoas um excelente público diante dessa realidade local, entende? Sem falar que colocamos 15.000 pessoas pra ver LH (Los Hermanos) + 3 bandas novas ano passado… e ainda sofremos com Paul McCartney na 2ª noite pop. Se soubéssemos de Paul antes, teríamos cancelado aquela noite, mas o show dele foi divulgado com 1 mês de antecedência. Se você pegar a programação dos últimos 5/6 anos, vai ver desde Mutantes até NZ (Nação Zumbi), de Television a Lee Perry… e outros que já citei.
Mas existe uma disparidade grande de público entre as duas noites. A noite pop precisa de uma identidade para atingir um nicho mais específico?
Não tem nada parecido com a noite pesada do APR no NO/NE do Brasil, então a galera sai de longe pra ver os shows… mas diante da diversidade que apresentamos na noite pop, não tem como criar um perfil dela, só se tivéssemos uma arma ao dispor… uma rádio para promover as bandas logo depois do carnaval, é assim que funciona em vários lugares do mundo, uma rádio promove o festival e vem fazendo o clima junto ao público, com promoções etc. Esse fator tem que ser levado em conta. Eu disse pra Transamérica que só anunciava porque precisava dar retorno aos patrocinadores, porque não acredito que ninguém vá para o festival porque ouviu na Transamérica, entende? Só se eles tocassem as bandas na programação, se realmente se envolvessem com o festival.
Rádio pública decadente, então remar contra a corrente é isso, desde sempre tem um outdoor na frente do posto em que abasteço, fiquei olhando a programação da noite pop, me coloquei no lugar do público em geral, os comentários seriam, “não conheço ninguém.…”. Realmente, um outdoor no Recife com Siba, Volver, Television, Jeneci e Móveis, é programação para poucos… não mais do que 5 mil pessoas, entende? Tivemos quase isso entre pagantes e convidados… agora imagina 3/4 músicas do Siba, Volver e Móveis tocando na rádio e chamando o público, teríamos mais 2/3 mil pessoas, não falo só do APR, mas dos shows locais, festas, etc. Tá tudo na internet, mas falta filtro pra chegar no grande público alienado.
Diante do conceito inicial do festival em 1993, você consegue reconhecê-lo da mesma forma 21 anos depois?
Reconheço no sentido da aposta em novos nomes, característica que nunca perdemos, mas as chamadas revelações eram do tempo que as gravadoras vinham e contratavam. Hoje a revelação é Volver, que vai pra SP e damos status de atração principal, mas não tem público de atração principal, está em processo de formação, entende? Temos intenção de mostrar bandas legais, que estão fazendo sua parte, na circulação, divulgação, promoção, etc. Para ajudá-las a se expor a um público que está indo para ver os principais. Em 1993 começamos recebendo fitas demo (K7), hoje poucas bandas nos enviam material físico, apenas 10% do que recebíamos (via Correios), a maior parte dos contatos são virtuais, recebemos links pro YouTube, SoundCloud, My Space, FanPage.
Tivemos que mudar para sobreviver à mudança impensável do mercado da música. Depois do Motorhead em 2009, preferimos não ficar refém de uma só banda de 200 mil reais pra trazer público, preferimos investir em uma combinação. Entre 2008/2009, perdemos a Petrobrás por causa da crise mundial e estávamos comprometidos com a Motorhead, a banda mais cara da nossa história. Aí veio o Iron Maiden quinze dias antes e nos tirou, pelo menos, 2 mil pagantes, então, decidimos não mais ficar refém de uma banda grande, mas de compor uma programação. Tarefa nada fácil, ainda mais em relação à noite pop que não podemos entrar na concorrência com SWU, Lollapalooza e Rock in Rio, tentamos então trazer bandas que estes festivais não trazem ou não se interessam.
Acredito que muitas coisas são levadas em consideração nas reuniões de curadoria do festival, mas tem como fazer uma síntese disso? E qual a importância da chegada de Bruno Nogueira e Guilherme Moura nesse processo?
Ineditismo do show na cidade, importância da banda, ineditismo da banda na cidade, momento da carreira da banda, quantidade de vezes que já tocou no festival, custo benefício, se teria público no Recife, combinação da noite, oferta de produtores parceiros que estão trazendo nomes na época do APR, oportunidades de contratação, tudo isso somado à realidade do Recife. São poucas as cidades no Brasil que tem essa oferta de shows gratuitos, os maiores gargalos dos 1990 ainda são os mesmos… difusão, principalmente a situação das rádios, mas também a ausência de um circuito nordestino com boa estrutura, para as bandas circularem e formarem público… não temos rádio, não temos clubs, temos pouco público formado.
Chamei Bruno e Guilherme para dividirem comigo a responsabilidade da curadoria, do contato com as bandas, de observar a cena local, nacional… Bruno vai sair, acho que ficou complicado de tempo, ele quase não veio nas reuniões do APR 2013, Guilherme se envolveu mais. Eu tenho uma experiência maior com curadoria, viajo sábado pra fazer a curadoria da Feira da Música de Fortaleza, 2º ano consecutivo, fiz 2 edições da Feira da Música Brasil, fiz a Womex em 2010, Projeto Pixinguinha, também sou um dos curadores do projeto de circulação de artistas de Minas Gerais. As turnês que participo também dão uma oportunidade de ver muita coisa legal que não chega por aqui.
A preocupação com a bilheteria pode prejudicar a qualidade artística do APR?
Não há preocupação com bilheteria no APR, planejamos sempre em cima dos anteriores, em termos de orçamento… o que vamos gastar com bandas, passagens, vistos, etc. Contamos sempre com a mesma média do público do ano anterior, quando surpreende, como em 2013, lindo… sobra um dinheirinho, muito menos do que possa se pensar. A grana da Petrobrás e Governo de PE, principalmente, vem para baratear o ingresso. Toda a imprensa de SP/RJ comentou o quanto é barato e justo o preço do APR, graças aos principais patrocinadores. Não nos preocupamos em faturamento, nos preocupamos em fazer uma boa edição, apostar em novos nomes, shows inéditos e atrair interessados na programação.
Há tempos não temos um Rappa, Skank, Nando Reis na programação… essas bandas atraíam um público curioso, hoje não há mais público curioso. No caso do Recife. Há um nicho de mercado, assim como na região, mas o que oferecemos está fora da grande mídia, show para grande público, só com astistas da “mídia”.… O melhor exemplo de como é difícil fazer um festival aqui na região foi o Festival de Verão do Recife, começou poprock… com Otto, NZ, Cidade Negra, Los Hermanos… acho que em 2003/2004, muita mídia da Globo, com muita antecedência, mas, o poprock não levou o público esperado, daí no 2º ano já meteram um axé music no meio, depois meteram forró do mal no meio… na última edição era forró, brega e axé, com Nando Reis no meio disso tudo. Aí naufragou, mesmo com a TV Globo Nordeste por trás e com a maior casa de shows da cidade, o Chevrolet Hall, por trás também.
Existe tanto uma escassez de palcos e, consequentemente, de festivais aqui na cidade. Tanto que o Abril pro Rock continua sendo um dos principais do Estado. Essa supremacia de alguma forma pode ser nociva para a formação de novas cenas musicais?
Acho que não, as dificuldades sempre irão existir para novos artistas e cenas, o melhor é encarar a real como ela é… vejo surgir muita gente legal, mas pouca oferta de shows e lugares pra tocar, como sempre a região também não ajuda… eu sempre digo, no dia que tiver um circuito de lugares pra 300/500 pessoas, organizados para novos artistas em cidades como Mossoró, Campina Grande, Caruaru, Petrolina, Vitória da Conquista, Crato, e mais as capitais, a cena independente daria um salto grande, mas a real é dura e crua… por isso muita gente se manda para o Sudeste, pra trabalhar e promover mais. Quanto tempo mais pra termos esse circuito nordestino, ou NO/NE? Aí vejo novos coletivos, muita gente jovem produzindo, mas quase sempre mais do mesmo… adoraria ver uma galera jovem, organizada, assumindo um inferninho, como era o N.A.V.E., o MUDA, o Acre.… o Quintal do Lima nem digo, porque o nome já diz, era um quintal.… sem infra, sem clima, atendimento péssimo, merecia fechar mesmo. Por incrível que pareça, tenho visto mais shows com público no Acre, do que no UK Pub.
Voltando ao Abril pro Rock deste ano, o que achou da performance dos pernambucanos?
Achei bem legal… Dunas do Barato e JuveNil são fortes candidatos para 2014 no APR, acompanho essa cena de perto, vou sempre no Desbunde Elétrico. Babi Jaques já havia tocado em 80 cidades brasileiras, tinha que ser reconhecida, foi finalista do Bis Pro Rock… Tagore quase rolou em 2012, mas acho que foi melhor para ele em 2013, mesmo. Optamos por Tibério em 2012, tava com disco novo. A Vocífera foi uma grata surpresa, uma banda de garotas de metal, tava faltando na forte e consolidada cena de metal local… estamos sempre abertos a conhecer as bandas novas, não só daqui. Ano passado fui no Goiânia Noise, no Porão do Rock (DF), Guilherme foi no Festival DoSol, estamos sempre atentos, inclusive através das coletâneas da MI, na verdade acho que temos que criar um 3º palco menor no APR, pra artistas e bandas pequenas, como já tivemos… o problema é sempre custo.
Seria uma boa. Vou te cobrar.
Tivemos em 2008, mas caiu naquela corte de custos entre 2008/2009, pela saída da Petrobrás, pela maldita crise mundial. Mas já estou avaliando as ideias pra 2014, acaba um, começa o outro, já tem umas cinco bandas que não rolaram esse ano e que podem rolar em 2014. O próprio Amarante, que vem para o Recife entre agosto e setembro e que pode voltar em abril para o nosso festival.
Paulo, acho que já temos um bom material… você quer falar mais alguma coisa?
Cara, rolou uma reunião da FBA (Festivais Brasileiros Associados) no APR… eu sou o presidente, queremos circular bandas gringas de pequeno e médio porte, não só nos festivais, mas também fazer turnês pelas cidades dos festivais. Uma coisa, por exemplo, é o Silva vir fazer um show no Recife, nem sei onde, teatro talvez… outra coisa é tocar em um festival, a visibilidade é muito maior, isso vale para outros festivais de todas as regiões, não há plataforma melhor de promoção no Brasil para um artista ou banda jovem… o desafio é sempre a continuidade, depois do circuito dos festivais, é complicado uma banda se manter no Brasil, nem todas conseguem, mas estamos todos trabalhando pra melhorar isso, aumentar a visibilidade para as bandas, cenas musicais e regiões do país.