A compra de imóveis no exterior, seja para investir ou passar as férias, tem seduzido os brasileiros. Entre 2007 e 2015, houve um salto de 201% no valor aplicado nessa operação, de acordo com o Banco Central.

A compra em si é simples: a operação não é tributada e a pessoa só paga o IOF de 0,38% para enviar o dinheiro do Brasil ao outro país. Mas antes de fechar negócio é necessário pesar prós e contras de vários pontos.

“É preciso avaliar o imóvel em si e o mercado imobiliário local. Quem ganha em real e vai investir em um país de moeda mais forte, como dólar e euro, tem que levar em conta ainda a flutuação cambial”, diz Alberto Ajzental, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.

Existem dois perfis de brasileiros que adquirem propriedades no exterior. O primeiro inclui famílias de classe alta que buscam imóveis em cidades com as quais já têm afinidade. A casa pode servir para passar as férias e ser alugada em momentos ociosos.

O segundo perfil é o de investidores com bastante capital que adquirem imóveis mais baratos com o objetivo de lucrar com aluguéis.

Os Estados Unidos concentram quase 40% dos imóveis comprados por brasileiros. Além do mercado em aquecimento e do crédito mais barato, o país leva vantagem por ser um destino de férias.

A Flórida, com praias e parques temáticos, é o Estado favorito. Em geral, os investimentos se concentram em casas de alto padrão, em condomínios com estrutura de clube, como o Echo Aventura, na Flórida, projetado pela Property Markets Group. Um apartamento no condomínio, com piscina e sala de ioga, custa a partir de US$ 1,5 milhão (R$ 4,8 milhões).

“A maior parte dos compradores estrangeiros são os usuários finais dos imóveis”, diz Craig Studnicky, da ISG (International Sales Group), empresa especializada no mercado de luxo nos EUA.

Segundo ele, os brasileiros são responsáveis por 34% das vendas feitas a estrangeiros. As transações têm um valor médio de US$ 2,65 milhões (cerca de R$ 8,5 milhões). Como a maioria desses clientes faz questão de ser atendida por um corretor brasileiro, muitas das imobiliárias têm equipes só para esse público.

Aqui no Brasil, imobiliárias oferecem intermediação de vendas para não residentes nos EUA. A Lello e a FB Capital são algumas das que têm o serviço. A Ativore, empresa especializada em apoiar imóveis internacionais para rendimento, também.

BUROCRACIA

Quem compra um imóvel no exterior precisa declarar o bem no Imposto de Renda e comunicar a compra ao Banco Central. Para transferir o dinheiro do Brasil também é necessário notificar o BC. Se houver omissão, o comprador pode ser acusado de evasão de divisas e sonegação.

Fernando Bergallo, sócio-diretor da FB Capital, especializada no assunto, diz que a operação não costuma demorar. “Quem tem o dinheiro declarado legalmente não enfrenta problemas nem para enviar nem para trazer os valores de volta ao Brasil”, diz.

Tanto Bergallo quanto Pedro Barreto, CEO da Ativore, enfatizam a importância de se fazer um planejamento fiscal detalhado a respeito dos eventuais impostos e taxas cobrados no exterior.

Nos Estados Unidos, por exemplo, no caso de morte do proprietário, dependendo do estado de conservação e do preço da propriedade, o imposto para transmitir a herança pode chegar quase a 45% do valor do imóvel.

PREÇO E IDIOMA IMPULSIONAM VENDAS EM LISBOA

O idioma e o custo de vida -mais baixo do que em outras capitais europeias- ajudaram a colocar Portugal na lista de países preferidos pelos brasileiros para a compra de imóveis no exterior. O interesse se concentra em Lisboa, onde a alta do turismo nos últimos anos impulsionou o aluguel por temporada.

Dados do Banco Central mostram que os brasileiros passaram a investir por lá com regularidade em 2012. No fim de 2015, Portugal já era o terceiro entre os países com mais investimentos vindos do Brasil. Com 8,7% do total, fica atrás dos EUA e da França.

Raquel Cunha/Folhapress
A arquiteta Sheila Triches, 49, que comprou um imóvel em Lisboa, em seu apartamento no Rio
A arquiteta Sheila Triches, 49, que comprou um imóvel em Lisboa, em seu apartamento no Rio

Segundo Gilberto Jordan, presidente do André Jordan Group, um dos maiores do setor em Portugal, quem escolhe o país é atraído pela segurança e pelo preço baixo. Lisboa é uma das capitais europeias com o metro quadrado mais barato (cerca de € 2.500, 75% a menos que em Paris).

Além disso, o governo incentiva a vinda de estrangeiros. Desde 2012, o país tem um programa de concessão de vistos de residência para estrangeiros que invistam pelo menos € 500 mil (cerca de R$ 1,7 milhão) em imóveis. Se a propriedade tiver mais de 30 anos ou estiver em uma zona que precise de restauração, o valor cai para € 350 mil (R$ 1,18 milhão).

PERFIL

Os brasileiros que compram imóveis em Portugal, em geral, estão em busca de uma segunda casa, seja para passar as férias ou para morar no futuro.

Dona de um imóvel em Lisboa, a advogada Sheila Triches, 49, que mora no Rio, usa a casa como uma base da família na Europa e avalia a possibilidade de, um dia, mudar-se de vez.

“Meu pai comprou o imóvel porque percebeu que a situação no Brasil estava ficando complicada e queria ter alguma coisa fora. Foi uma excelente decisão”, afirma.

PRECAUÇÕES

É preciso declarar o imóvel no Imposto de Renda e, ainda, fazer uma declaração adicional ao Banco Central.

Para enviar o dinheiro do Brasil para o exterior na hora da compra do imóvel também é preciso comunicar o Banco Central.

O esquecimento da declaração pode trazer problemas: o comprador pode ser enquadrado nos crimes de evasão de divisas ou lavagem de dinheiro.

Empréstimos no exterior costumam ser mais baratos do que no Brasil, mas o valor das prestações está sujeito à flutuação cambial.

Artigo publicado na Folha, clique aqui para ver a publicação original.

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